MAIOR SAÍDA DESDE 2020 | Eleições, questão fiscal e IA levam estrangeiros a tirar R$ 18 bi do país
- Carolina Nalin

- há 4 dias
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Este mês, em apenas duas semanas, os investidores internacionais retiraram R$ 18,1 bilhões da Bolsa brasileira. É a maior debandada de capital estrangeiro em seis anos, desde março de 2020 — quando, no início da pandemia de Covid-19, levou temor aos mercados globais. É um forte contraste com o primeiro semestre, pois só em janeiro o fluxo externo havia superado todo o saldo de 2025.
Especialistas avaliam que esse movimento reflete tanto a estratégia de tentar cortar a volatilidade do período eleitoral quanto a busca por retornos maiores em mercados mais atraentes, especialmente aqueles com ações de empresas da área de inteligência artificial (IA), que são basicamente americanas e asiáticas. Com isso, em agosto, até ontem, o Ibovespa acumula queda de 5,71%.
A esse pano de fundo, dizem economistas ouvidos pelo GLOBO, soma-se a preocupação com o fiscal ainda incerto dos dois principais candidatos.
“DESASTRE FISCAL”
Rafael Winalda, especialista em renda variável do BTG Pactual, lembra que a virada começou em abril, com a escalada do conflito no Oriente Médio, o petróleo batendo em US$ 100 e a alta dos juros nos títulos de 10 anos dos Estados Unidos — que tornou o mercado americano considerado seguro, competitivo frente aos emergentes, de maior risco.
— Diria que, até junho, a saída foi majoritariamente por fatores externos: juros americanos, petróleo e o apelo da tese de IA. A partir de julho, com a proximidade da eleição de outubro, o fator local ganhou peso relativo — explica Winalda.
Para ele, mais do que o nome do vencedor das eleições, o mercado quer entender o compromisso com o próximo governo com o arcabouço fiscal, dado que a dívida pública deve fechar o ano perto de 84% do PIB:
— Enquanto essa clareza não vem, com o cenário incerto global e o risco de inflação no Brasil e mundo afora, entendemos que o estrangeiro ainda fica resistente em tomar este cenário.
Segundo Luiz Fernando Figueredo, ex-diretor do BC e sócio da Capitalo, o receio com a valorização das ações de IA nos EUA — quando se teme uma formação de uma bolha — levou investidores a buscar alternativas, o que beneficiou o Brasil. Depois que as empresas do setor divulgaram resultados sólidos no segundo trimestre, esse movimento perdeu força. Agora, o que está no radar é a questão fiscal, e os investidores reavaliam se o Brasil oferece uma boa relação entre risco e retorno:
— O que foi feito na parte fiscal no Brasil ao longo desse ano foi um desastre. O governo não está gastando mais de R$ 230 bilhões fora do arcabouço, com a soma sem precedente. E, com o horizonte para a frente indefinido, existe um receio de que, se esse governo se reeleger, haverá uma crise importante — diz Figueredo.
Estudo do Intercapitalo, B3, aponta que o Ibovespa teve bom desempenho no segundo trimestre, puxado pelo setor de óleo e gás, que ficou 71% acima das estimativas. Sem esse segmento, o lucro das demais empresas que compõem o índice registraria queda de 2% em relação ao mesmo período do ano anterior. O Inter projeta que o Ibovespa deve encerrar 2026 aos 193 mil pontos, como projetou lucro de 9,5 vezes. Um desconto maior viria de uma piora fiscal ou de uma eleição que adicionasse mais incerteza, segundo Winalda.
POSSÍVEL ESCALADA DO DÓLAR
Já o banco americano JP Morgan alerta que o real está vulnerável às vésperas da eleição, apesar dos juros altos. A instituição aponta que os investidores estão muito posicionados na moeda brasileira, enquanto o câmbio não oferece nenhum prêmio de risco suficiente para compensar as incertezas.
No caso de uma piora fiscal após as eleições, o JPMorgan projeta que o dólar pode subir 6%, para cerca de R$ 5,50, se os juros dos títulos públicos podem chegar a 15,5%. Já em um cenário de correção da trajetória fiscal, o banco projeta a moeda americana a R$ 4,90, com as taxas dos contratos futuros recuando a 13% (ontem, aqueles de prazos mais longos superavam 14%).
Diante dos riscos, a recomendação é manter posição neutra no real.
O mercado brasileiro tradicionalmente não tem bom desempenho nos seis meses antes de eleições presidenciais, lembra Elisa Machado, economista-chefe da KAT Investimentos. Ela chama atenção também para o fato de o Ibovespa ter pouca exposição ao avanço da corrida por IA, enquanto as Bolsas americanas e europeias concentram papéis do setor, o que atrai recursos.
AINDA SEM PROPOSTAS
O cenário externo também pode pesar sobre os juros brasileiros. O Japão, que por anos forneceu recursos baratos para operações de carry trade (quando investidores tomam recursos em economias com juros baixos e aplicam em países com taxas mais elevadas), vem elevando seus juros, o que pode reduzir uma fonte que ajuda a sustentar o real.
Esta semana, o título de 30 anos japonês superou 4%, pela primeira vez em 27 anos.
O rendimento do título do Tesouro americano de 30 anos passou de 5,3% na segunda-feira, maior nível desde 2007, o que levou o governo a ampliar o teto para recompras dos títulos vencidos (lei mais abaixo). Já os papéis britânicos atingiram o maior rendimento desde 1998.
Com a campanha eleitoral apenas no início, a expectativa é de mais volatilidade para o Ibovespa até dezembro, projeta Elisa:
— Por enquanto, é uma campanha eleitoral muito focada na polarização e com pouca discussão de propostas. Isso incomoda o investidor. Ele quer ver o que cada um dos candidatos pensa, por exemplo, em relação à política fiscal. Ainda não chegamos a esse ponto.
Para Winalda, se a eleição continuar incerta até o segundo turno e persistirem o conflito no Oriente Médio e o fluxo para IA em outras frentes, a janela do Brasil para o capital estrangeiro vai ser muito pouco favorável “por mais tempo do que o mercado gostaria”.



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