Juro longo nos EUA em máxima de duas décadas: o que isso cobra do Brasil
A semana passada fechou com os juros americanos de longo prazo em máximas históricas recentes: o Treasury de 10 anos chegou a 5,228%, maior nível desde junho de 2007, e o de 30 anos passou de 5,5% pela primeira vez em 22 anos, maior nível desde 2004. O pano de fundo é a super semana dos bancos centrais.
O Fed subiu os juros pela primeira vez em três anos e o BCE aumentou pela segunda vez no ano. O Fed levou a taxa para 3,75% a 4,00%, por unanimidade, e já sinalizou ao menos mais uma alta até o fim do ano. O BoE manteve 3,75% pela sexta vez seguida, com três votos por alta. O BoJ elevou a taxa de 1% para 1,25%, maior nível em 31 anos. No Brasil, o Copom foi na contramão: reduziu a Selic de 14% para 13,75% por unanimidade, o quinto corte seguido. Com o mundo apertando e o Brasil cortando, o diferencial de juros encolhe, o que pode pressionar o real e mexer com as operações de carry trade, ainda mais com tanta volatilidade lá fora.
A guerra segue como principal fonte de risco para a inflação global. O petróleo voltou a operar acima de US$ 100, com o Brent hoje entre US$ 106 e US$ 107, depois que Trump rejeitou a proposta iraniana de trégua de sete dias, apresentada na ONU, para reabrir o Estreito de Ormuz. A cotação só não está mais elevada por conta do alívio no fluxo de petróleo pelo estreito: as exportações do Oriente Médio em setembro foram as maiores desde o início da guerra, com a retomada dos embarques pela região. Ainda assim, a escalada das ameaças dos EUA e a falta de acordo mantêm o preço pressionado e ameaçam a inflação mundial.
Nos EUA, a semana é decisiva e carregada de dados. Na terça saem o JOLTS de agosto e a confiança do consumidor, na quarta o ADP, o PCE de agosto e o PIB do 2º trimestre, na quinta o ISM industrial, e na sexta o Payroll de setembro. A expectativa do Bradesco para o Payroll é de 100 mil vagas, com desemprego estável. Como o mercado já precifica nova alta do Fed, esses números podem calibrar o tamanho dessa aposta.
No Brasil, o IPCA-15 de setembro veio acima do esperado: alta de 0,70%, contra 0,53% na pesquisa da Reuters, e 4,47% em 12 meses. Parte da surpresa foi pontual, com o fim do bônus de Itaipu na conta de luz. Mas os preços livres também pesaram, com passagens aéreas, gasolina e seguro de veículo, além de alimentos (tomate +20,76%). Os núcleos pioraram: a média dos cinco núcleos acelerou de 0,23% para 0,34%. Por isso, o BC deve seguir "data dependent": os próximos passos da política monetária dependerão dos números e dos acontecimentos. Nesta semana saem também PNAD, Caged, IGP-M, resultado primário e produção industrial. Por fim, é a última semana antes do primeiro turno, então o mercado deve ficar atento a pesquisas (a Quaest divulga hoje), ao debate entre Lula e Flávio Bolsonaro e a eventuais denúncias, em um ambiente de volatilidade.




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